Artesanato do NorteMetal

Chocalhos de Alcáçovas

O chocalho de Alcáçovas é um instrumento de percussão (idiofone de agitamento) munido de um só batente interno, que pode ir dos 2 aos 50 cm de altura. Este utensílio também definido como sino, ou campana, é habitualmente suspenso no pescoço do gado, com a ajuda de uma correia em couro cravejada e trabalhada, com o intuito de localizar e dirigir o gado.

A produção de chocalhos é uma arte milenar, que tem no território alentejano a maior expressão a nível nacional, com especial destaque para a Vila de Alcáçovas, do concelho de Viana do Castelo, pertencente ao distrito de Évora. Não sendo possível datar de maneira exata o início desta arte na vila de Alcáçovas, sabe-se que por volta do século XVIII era a principal indústria tradicional da vila, e que desde então o processo de fabrico e as ferramentas utilizadas para a construção destes utensílios continua a ser praticamente o mesmo.

A produção destes artefactos é completamente artesanal e exige uma técnica complexa. Nas grandes chapas de folha de Flandres (material laminado, constituído por ferro e aço), talham-se os chocalhos, conforme o tamanho ou a qualidade que se deseja. Estas folhas levam quatro golpes em sentido inverso, e mais tarde são encaixadas e enroladas de modo a ficarem com o molde do chocalho, que depois é debruado com pequenas tiras de folha. A seguir, é aberto um furo, ao alto, onde é colocado o céu, ou gancho que mais tarde irá segurar o badalo (peça oscilante que faz soar o chocalho). Procede-se à colocação da asa e fixa-se com pregos os brasões ou as marcas, que foram previamente cortadas em chapa de ferro preta e que funcionam como a assinatura do seu artesão ou da casa agrícola que fez a encomenda. Numa superfície plana amaça-se barro misturado com cisco e moinha (fragmentos de palha de trigo) que irá servir para envolver todo o chocalho (embarrar o chocalho), dentro do qual se colocaram previamente uns pedaços de metal. Com um ferro, abre-se uma pequena abertura no barro para servir de respiradouro. Após todo este processo coloca-se o chocalho numa forja, até atingir um estado de incandescência, momento em que o ferro, com um ponto de fusão mais baixo que o do cobre e do bronze, funde-se cobrindo todo o chocalho (impregnando o ferro), ficando assim a marca e o “brasão” colados e em relevo. Depois de retirado da forja, este é saracoteado num chão liso, e metido em água para arrefecer por completo e para que o chocalho tome a cor acobreada. É um longo processo, mas ainda não fica por aqui! Depois de todos estes passos é retirado o barro do chocalho, e procede-se à afinação através de uma série de marteladas macias no interior do debrum, nas quais o artesão procura encontrar um som mais agradável, claro, límpido e ressoante. É uma operação delicada onde o mestre artesão aplica a parte artística da sua obra! Por último, mas não esquecido, coloca-se o badalo, que é uma pequena parte da folha cortada em triangulo, que depois de enrolada com umas marteladas, fica com uma cabeça própria.

Desde o século XX que a procura de chocalhos tem vindo a perder fervor, dado ao aparecimento das cercas e chips para controlo e proteção dos animais em pastagem. A redução da procura associada à dureza inerente da atividade de construção destes artefactos, provocou uma diminuição drástica de artesãos dedicados a esta arte, colocando-a em risco de extinção. Em dezembro de 2015 o fabrico de chocalhos foi classificado como Património Imaterial da UNESCO. Este reconhecimento veio dinamizar a procura de chocalhos de Alcáçovas que são agora vendidos principalmente para fins decorativos e para colecionadores, sobretudo estrangeiros.

Cabe agora aos poucos mestres artesãos ainda existentes, dinamizar esta grande riqueza deixada pelos seus antepassados, e incentivar outros a continuar com a produção destas peças que criam uma paisagem sonora única e característica, de uma beleza rara, que provoca um sentimento intemporal de bem-estar.

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